12 de julho de 2024
PECUÁRIA

Bovinocultura de corte: cuidados básicos no transporte de animais

CUIDADOS

Boas práticas durante o embarque, a viagem e o desembarque proporcionam resultados positivos para a cadeia produtiva da carne

Por Rosângela Porto

O transporte é uma das etapas do manejo pré-abate e, assim como as demais, possui grande influência em relação à qualidade da carne, do couro e ao aproveitamento da carcaça. Diariamente, milhares de bovinos são transportados no Brasil, muitas vezes, de uma fazenda para outra, mas, principalmente para os abatedouros. Por isso, o pecuarista deve delegar a uma equipe experiente a missão de transportar o rebanho, cumprindo-se todos os cuidados necessários. 

Por ser uma atividade importante na cadeia produtiva da carne, o transporte deve ser bem planejado e organizado. Conforme divulgação da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), cabe aos profissionais envolvidos (das fazendas, das transportadoras, motoristas e dos abetedouros) a definição prévia de quais animais serão transportados, o tipo de veículo a ser utilizado, a quantidade de caminhões necessários, as rotas a serem percorridas, as datas e os horários previstos para o embarque e o desembarque e quem serão os motoristas responsáveis. 

Os profissionais das fazendas devem preparar os lotes de animais que serão transportados.
Foto: Ana Carolina Souza Chagas/Embrapa

As equipes das fazendas são encarregadas de preparar os lotes de embarque com antecedência. Além disso, devem providenciar os documentos exigidos para a viagem.

Já às transportadoras e aos motoristas cabem a boa manutenção dos veículos, o conhecimento sobre as condições das estradas, o cumprimento das boas práticas de manejo no transporte e a devida atenção quanto a todas as informações sobre a viagem.  

Por sua vez, os profissionais dos abatedouros realizam a etapa final do processo. Eles são responsáveis por realizar o desembarque dos bovinos com agilidade e eficiência.     

Documentos

Para que se possa realizar o transporte legal e seguro dos animais, é preciso se atentar a uma série de registros oficiais. Ainda de acordo com a publicação da Acrimat, o motorista deve verificar se os documentos do veículo, bem como sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH), estão em ordem e dentro dos prazos de validade. Caso haja algum tipo de irregularidade é preciso substituir o veículo e/ou o motorista.   

Outros documentos necessários são as Guias de Trânsito Animal (GTAs), as notas fiscais do produtor (em que constam informações sobre a origem e o destino dos animais) e, em determinadas situações, os registros de identificação animal. Em alguns casos são necessários, ainda, outras declarações oficiais, como os atestados de sanidade específicos. Os responsáveis devem cuidar para a obtenção dos documentos com antecedência. 

O manejo correto dos animais durante todos os processos que antecedem o transporte é fundamental para o sucesso da atividade.
Foto: Juliana Sussai/Embrapa

Considerar a região e o destino para o qual os animais serão levados também é fundamental. Os bovinos transportados para frigoríficos cuja finalidade é a exportação, precisam ter documentos específicos. 

Para evitar problemas, os motoristas e os encarregados dos embarques nas propriedades devem verificar a legitimidade dos documentos com antecedência. Caso sejam constatadas irregularidades, isso resultará na retenção dos veículos, o que colocará em risco o bem-estar e a segurança dos animais devido ao tempo que podem permanecer parados, dentro dos caminhões, sob condições inadequadas.   

Box Saiba Mais
A Guia de Trânsito Animal é o documento oficial exido para o transporte animal no Brasil e que contém informações especiais que permitem a rastreabilidade, como a origem, o destino, a finalidade, a espécie, as vacinações, entre outras). É importante destacar que para cada tipo de animal existem normas específicas para a emissão da GTA, com exceção dos cães e gatos, que são isentos da emissão do documento.   
Para solicitar habilitação para a emissão da GTA e obter mais informações, os interessados devem consultar a página referente ao Trânsito Nacional de Animais, no portal do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
Nilton Mesquita – Gerente de relações institucionais da Acrimat

Embarque

Antes de se realizar o processo, é necessário que haja planejamento. Este trabalho realizado no escritório da fazenda consiste na preparação dos documentos mencionados. Nessa etapa são definidos quais animais serão transportados, onde, quando e o profissional responsável pela atividade. 

Outro cuidado importante é cuidar para que o embarque não seja realizado no mesmo dia em que estão sendo realizadas outras tarefas na propriedade, como vacinação, por exemplo. O manejo para o embarque também não deve atrapalhar as demais atividades da fazenda. 

O modelo e a estrutura do embarcadouro também são de grande relevância. Esse tipo de instalação é o que permite conduzir os bovinos para dentro da “gaiola” do caminhão. Consiste, portanto, em um corredor com uma rampa no final, que permite aos animais irem até a “gaiola”. O embarcadouro pode ser constituído de diferentes tipos de materiais, como madeira, concreto e chapas de metal. Quanto ao formato, pode ser construído em linha reta ou em curva. Além disso, deve ter as paredes laterais fechadas, a fim de evitar que os animais se distraiam com o movimento ao redor do local do embarque.     

De acordo com o médico veterinário e gerente de relações institucionais da Acrimat, Nilton Mesquita, o processo de embarque deve ser feito de acordo com a estrutura da propriedade. “Não adianta querer embarcar todos os animais o mais rápido possível, que não dará certo. Deve ser feito o embarque calmamente, em pequenos grupos, sem gritaria ou uso do choque. Os animais devem embarcar sem pressa, de forma tranquila, para que não tenham escoriações e não se machuquem. Além disso, a área por onde esses animais vão passar deve estar limpa e deve ser um caminho livre para o animal passar”, explica.

Viagem

O ato de deslocamento dos bovinos também precisa ser minuciosamente planejado. O motorista responsável deve ter conhecimento antecipado, por meio de um mapa, sobre toda a rota de viagem, assim como sobre o local de desembarque. Informações detalhadas sobre a distância a ser percorrida e o horário previsto para a retirada dos animais do veículo devem constar no planejamento.  

Segundo Nilton Mesquita, geralmente não há um intervalo de tempo no trajeto da propriedade até o frigorífico. “O veículo segue viagem direto, pois o embarque e o desembarque são situações de extremo estresse para os animais e podem causar problemas, como fraturas e escoriações. Então, o recomendado é uma viagem contínua e que sejam trajetos mais curtos possíveis, para serem menos sacrificantes para os animais”, comenta.

Desembarque

Após a chegada ao abatedouro e a conferência dos documentos é preciso realizar o desembarque dos animais, imediatamente, de forma ágil, mas sem pressa. O intervalo entre a chegada ao local de destino e o início da retirada dos animais do caminhão não deve exceder 10 minutos. 

À equipe responsável pela recepção dos animais no abatedouro cabe a função de preparar e checar as instalações para onde esses animais serão levados, orientar os motoristas em relação à forma e ao local de estacionar o veículo, conferir os documentos e a carga viva e auxiliar no processo de desembarque. Deve ser capaz, ainda, de realizar abates de emergência, caso seja necessário. 

“O manejo de desembarque também deve ser feito de forma calma. Normalmente, esse desembarque nos frigoríficos é bem tranquilo, pois quando se chega ao local, já tem uma rampa preparada para a descida dos animais do veículo. Esses animais passam por um banho antes de entrar no frigorífico e, na medida em que vão entrando, são alojados em currais com água, onde passam o dia. Em casos de período muito quente, é feita uma aspersão de água para que os animais fiquem mais confortáveis”, afirma o médico veterinário.

O pecuarista deve estar sempre atento à garantia das boas práticas de manejo no transporte, preservando, assim, o bem-estar dos bovinos. Dessa maneira, a cadeia produtiva da carne obterá bons resultados, o que irá refletir, consequentemente, em benefícios para o setor agropecuário e para a atividade econômica do País.

Foto capa: Ana Carolina Souza Chagas/Embrapa