PECUÁRIA

Alimentação de qualidade para bovinos no período seco

ALIMENTAÇÃO

Planejamento antecipado por parte do pecuarista assegura o bom desenvolvimento do rebanho

Por Rosângela Porto

O manejo alimentar correto na bovinocultura é um dos pilares que garantem sucesso em todas as etapas da criação. Especialmente em época de seca é fundamental que o produtor se atente quanto a esse quesito, a fim de oferecer opões adequadas de alimentos para os animais.    

Nesse sentido, é preciso avaliar as circunstâncias e realizar o planejamento de estratégias para garantir alimentação satisfatória para o rebanho durante todo o ano. Isso irá minimizar ou até mesmo extinguir determinados problemas que podem surgir no decorrer da atividade pecuária.  

Dentre os principais desafios dos pecuaristas brasileiros, destaca-se o preparo do pasto para alimentar os animais no período seco do ano. Essa tarefa torna-se ainda mais difícil para aqueles que concentram a atividade na região central do Brasil, onde a seca e as variações de temperatura afetam a produção forrageira, reduzindo, assim, a qualidade dos pastos. 

A silagem pode ser ofertada aos animais na forma natural ou misturada com farelos ou suplementos – Foto_ Rodrigo Alva

Como forma de driblar tais problemas, segundo o zootecnista e pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Rodrigo Gomes, existem inúmeras possibilidades que envolvem práticas para pequenos, médios e grandes produtores. “Independente do porte da propriedade e do rebanho, sugere-se que se faça o diferimento de uma área de pastagem da propriedade, no período de outono, para que haja acúmulo de forragem para ser usado no período de escassez. Como esta forragem terá baixa qualidade, é importante que o rebanho receba suplementação mineral proteica, melhorando o aproveitamento da forragem pelo animal e também o seu consumo”, explica. É importante destacar que para realizar a técnica do diferimento, o pecuarista deve selecionar algumas áreas da propriedade rural no período chuvoso e preservá-las na época do pastejo.

Em pequenas propriedades, outra alternativa é a produção de silagem de milho, sorgo, cana-de-açúcar ou capim. A silagem deve ser produzida no verão e poderá ser consumida pura ou misturada com farelos e suplementos no período de estiagem. Para facilitar o trabalho, tem se tornado cada vez mais frequente a prática de pequenos produtores adquirirem o alimento de outros produtores em sacos de 30 kg, aproximadamente, facilitando, portanto, o transporte e o manuseio.  

Para os grandes pecuaristas, cuja capacidade de investimento é maior, há ainda estratégias de confinamento e semi-confinamento. “Estas práticas demandam um nível gerencial maior e também envolvem maior risco, porém são normalmente viáveis do ponto de vista técnico e também econômico”, afirma Rodrigo Gomes.

Implementação e relevância das estratégias

O diferimento de pastagem pode ser utilizado independentemente do porte da propriedade – Foto_ Rodrigo Alva

Para realizar o diferimento de pastagem com o objetivo do acúmulo de forragem para a seca, o pecuarista deve selecionar a melhor área para esse fim e equilibrar a lotação animal. Vale destacar que nem todas as cultivares de capim são indicadas para diferimento. Nesse caso, o produtor deve preferir aquelas que produzem menos colmo e mais folhas, como as espécies Marandu, Coast-cross e Piatã.

Quanto à produção de silagem, é necessário que o pecuarista cumpra as orientações técnicas referentes ao plantio, aos tratos culturais e à colheita. “Assim, ele terá um bom rendimento da lavoura, barateando o custo por quilograma de silagem produzida”, pontua o zootecnista. 

Para os produtores que almejam implantar o confinamento e o semi-confinamento, a estratégia a ser seguida é o planejamento antecipado, com a compra de grãos e farelos que irão compor a ração dos animais. Além disso, o ideal é que busquem negócios que reduzam o custo de aquisição.  

Considerando a variabilidade do período seco, que pode ser mais ou menos rigoroso em determinados anos, é importante que o produtor esteja sempre preparado. “Muitas vezes, nem o diferimento de pastagem é suficiente para disponibilizar forragem para todo o período seco, principalmente em anos em que as chuvas atrasam na primavera. Por isso, ter um plano B, como silagem ou mesmo feno na propriedade, é essencial para que o rebanho não tenha quedas acentuadas de desempenho e as pastagens não sejam pastejadas em demasia”, comenta Rodrigo Gomes. O especialista afirma, ainda, que o pastejo em excesso das pastagens prejudica o rebrote da vegetação no início das chuvas, o que afeta a capacidade de suporte da propriedade por meses.  

Rodrigo Gomes, zootecnista e pesquisador da Embrapa Gado de Corte

Benefícios

De acordo com o pesquisador, o uso das estratégias de alimentação para o rebanho bovino em época de seca apresenta diversas vantagens. A propriedade passa a ter maior capacidade de suporte, aumenta-se o ganho de peso dos animais e as pastagens são mantidas em boas condições, o que minimiza a necessidade de recuperação e de reformas. De forma geral, portanto, haverá maior produção de arrobas por hectare, além da propriedade se tornar mais produtiva.  

Por sua vez, o aumento na produtividade e da receita pode aumentar as margens de ganho. Mas, para isso, o produtor deve se valer do amparo de uma análise econômica, anteriormente, e do uso correto das técnicas necessárias.

Além disso, para obter sucesso na bovinocultura de corte, o pecuarista precisa se atentar para vários fatores antes de decidir quais estratégias irá adotar. “Questões de logística, mão-de-obra, preço de insumos, preço esperado de venda da produção e capacidade de investimento devem ser analisadas cuidadosamente”, afirma Rodrigo Gomes.

SAIBA MAIS
Conforme divulgação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), para garantir êxito na implementação do diferimento de pastagem, o produtor deve cumprir as dicas a seguir: 

• Respeitar a época correta para realizar o diferimento: no Brasil, o período ideal para efetivar a técnica é entre os meses de fevereiro e março (antes da seca chegar e/ ou antes das temperaturas baixarem).

• Fazer o diferimento em escalas: o correto é dividir o terreno para atender a épocas diferentes. Por exemplo: utilizar 50% do espaço para os meses de maio a julho e o restante para agosto a outubro.

• Atentar-se quanto à duração do diferimento: recomenda-se trabalhar no terreno selecionado em um período de 60 a 90 dias. Caso o diferimento aconteça em um período de duração maior, menor será a qualidade da forragem. E, ao contrário, se a duração do diferimento for menor, menor será a quantidade de forragem.

• Rebaixar o pasto antes do diferimento: para isso, o produtor deve remover a folhagem velha, a fim de otimizar a formação de folhas novas. Recomenda-se reduzir a altura do pasto em 10 ou 20 centímetros.

• Não se limitar à forragem diferida: é preciso investir também na suplementação proteica e energética para garantir o bom desempenho do rebanho. 
Fotos: Rodrigo Alva