PECUÁRIA
Com mais de 1,86 milhão de dados de IATF analisados em 2026, programa da Zoetis reúne informações de mais de 2.000 propriedades e amplia o conhecimento sobre os fatores que influenciam os resultados reprodutivos dos rebanhos
A evolução da reprodução bovina brasileira passa não apenas pelo desenvolvimento de novas biotecnologias, mas também pela capacidade de compreender os resultados obtidos no campo e transformar informações em decisões práticas. É com essa proposta que o GERAR, programa desenvolvido pela Zoetis em parceria com profissionais da área, reúne e analisa dados de diferentes propriedades para identificar fatores associados à eficiência reprodutiva e contribuir para o aprimoramento das estratégias de manejo.
Criado em 2006, o GERAR — Grupo Especializado em Reprodução Aplicada ao Rebanho — completa duas décadas de atuação em 2026, acumulando mais de 16 milhões de dados. Ao longo desse período, a iniciativa consolidou uma base de conhecimento que permite comparar resultados, identificar oportunidades de melhoria e compreender como variáveis relacionadas aos animais e aos sistemas de produção interferem no desempenho reprodutivo.
A dimensão desse trabalho aparece no Caderno GERAR Corte 2026, que analisou 1.861.250 dados de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), provenientes de 2.278 propriedades. Os procedimentos analisados resultaram em 939.478 prenhezes, com taxa média de prenhez de 50,5%. Considerando apenas a primeira IATF, foram registrados mais de 1,4 milhão de procedimentos, com taxa de prenhez de 51,8%. Mais do que apresentar números, o programa busca compreender o que está por trás dos resultados e como esse conhecimento pode contribuir para decisões mais assertivas dentro das fazendas.
De acordo com o gerente técnico da linha de reprodução bovina da Zoetis, Francisco Lopes, o diferencial do GERAR está na capacidade de transformar um grande volume de informações coletadas no campo em conhecimento aplicável à rotina das propriedades. “O grande valor do GERAR está em transformar uma grande quantidade de dados de campo em informação que possa ser utilizada na tomada de decisão”, afirma.

Indicadores que orientam o manejo reprodutivo
Para compreender a eficiência reprodutiva de um rebanho, não basta observar isoladamente a taxa de prenhez. É necessário avaliar as condições em que os resultados foram alcançados, considerando aspectos como categoria animal, condição corporal, protocolos utilizados, ressincronização e execução do manejo.
Essas variáveis ajudam a explicar por que propriedades que utilizam tecnologias semelhantes podem apresentar desempenhos distintos. A reprodução é influenciada por um conjunto de fatores que envolve nutrição, sanidade, genética, ambiente e manejo, além da correta aplicação dos protocolos reprodutivos.
Segundo Francisco Lopes, a análise estruturada dos dados permite identificar oportunidades de melhoria e direcionar ações de acordo com a realidade de cada propriedade. “Não se trata simplesmente de dizer se uma taxa de prenhez está boa ou ruim, mas de entender o que está por trás daquele resultado. Quando analisamos os dados de forma estruturada, conseguimos direcionar melhor as decisões e tornar o manejo reprodutivo mais eficiente”, complementa.
Essa abordagem também permite reconhecer gargalos que podem comprometer o desempenho do programa reprodutivo. Entre os pontos que merecem atenção estão a condição corporal das matrizes, o momento em que as fêmeas são inseridas no programa e a agilidade para oferecer uma nova oportunidade de inseminação àquelas que não emprenharam na primeira tentativa. Um dos recursos que contribuem para esse processo é a ressincronização, estratégia que permite realizar uma nova IATF em fêmeas que não ficaram gestantes no primeiro procedimento.
Os dados do GERAR Corte 2026 mostram que, após duas IATFs, as taxas acumuladas de prenhez superaram 70% em todas as categorias avaliadas. Entre as multíparas, as taxas chegaram a 79,8% nas fêmeas taurinas e cruzadas e a 77,8% nas zebuínas. Os resultados evidenciam a importância de avaliar não apenas o desempenho da primeira inseminação, mas também as oportunidades de aumentar a proporção de matrizes gestantes ao longo da estação de monta.
Na avaliação de Francisco Lopes, identificar onde ocorrem as perdas de eficiência é fundamental para direcionar as intervenções. “Mais do que olhar apenas para a taxa final de prenhez, precisamos entender onde estão as perdas de eficiência de cada propriedade e atuar de maneira direcionada sobre elas”, afirma.
A evolução da reprodução bovina sob a análise dos dados
Desde a criação do programa, houve diversas mudanças relacionadas à reprodução bovina. A IATF ganhou escala, os protocolos, a genética, o manejo, a sanidade e a nutrição evoluíram e, simultaneamente, a capacidade de gerar e analisar informações aumentou.
O Caderno GERAR Corte 2026 mostra isso ao permitir a análise do desempenho de acordo com a categoria animal, raça, condição corporal, protocolo utilizado, ressincronização e uma série de outras variáveis. Para se ter ideia, a taxa de prenhez das fêmeas multíparas variou conforme o escore de condição corporal. Entre aquelas com escore igual ou inferior a 2,5, o índice foi de 49,5%. Já nas fêmeas com escore igual ou superior a 3,5, a taxa alcançou 56,8%.
Idealizador do GERAR em parceria com a Zoetis, o professor José Luiz Moraes, conhecido como Zequinha, destaca que a análise de dados acumulados ao longo dos anos permite compreender melhor essas relações em condições reais de produção. “Um dos grandes aprendizados desses anos é justamente perceber que não existe uma variável isolada capaz de explicar a eficiência reprodutiva. O resultado é consequência da interação entre animal, ambiente, manejo e tecnologia”, declara.
Para ele, a contribuição do programa está justamente em ampliar a compreensão sobre o comportamento dos diferentes sistemas de produção, permitindo que a avaliação dos resultados ultrapasse a percepção individual de cada fazenda.

Duas décadas aproximando pesquisa e realidade do campo
A origem do GERAR está relacionada ao avanço das tecnologias reprodutivas no Brasil, especialmente da IATF, e à necessidade de compreender como essas ferramentas se comportavam nas condições reais das propriedades.
Em 2006, a proposta era aproximar a pesquisa, a indústria e os médicos-veterinários que atuam diretamente nos rebanhos, criando uma base de informações capaz de contribuir para o desenvolvimento da reprodução bovina.
Ao longo de 20 anos, o programa ampliou sua abrangência e passou a reunir dados de diferentes regiões, propriedades, categorias animais e condições de manejo. Essa escala constitui uma das principais diferenças em relação ao acompanhamento reprodutivo convencional.
De acordo com José Luiz Moraes, o trabalho coletivo permite identificar padrões que seriam mais difíceis de perceber a partir da análise isolada de uma propriedade. “A diferença está principalmente na escala e na construção coletiva do conhecimento. O técnico acompanha a realidade individual de uma fazenda, enquanto o GERAR reúne informações de diferentes propriedades, regiões, categorias de animais e condições de manejo, permitindo uma visão muito mais ampla da reprodução”, afirma.
Na edição de 2026, além da análise geral dos resultados, o programa realizou uma seleção específica para a composição do ranking de desempenho. Das propriedades participantes, 891 atenderam aos critérios estabelecidos para essa comparação. Entre elas, 350 apresentaram resultados iguais ou superiores a 50,6%, reunindo mais de 530 mil inseminações.
O levantamento permite estabelecer referências de desempenho e ampliar a discussão técnica sobre os fatores relacionados aos diferentes resultados. A comparação, contudo, exige considerar as características dos rebanhos e as condições de cada sistema produtivo, evitando interpretar os índices de forma isolada.
Para o professor, a contribuição do GERAR está na possibilidade de transformar os registros de campo em conhecimento que retorna às propriedades e ajuda a qualificar as decisões. “É uma via de mão dupla: a fazenda gera o dado, nós transformamos esse dado em informação e discussão técnica, e esse conhecimento ajuda a qualificar as decisões tomadas na própria propriedade”, ressalta.
O desafio é transformar tecnologia em eficiência
Apesar dos avanços nas biotecnologias reprodutivas, o desempenho alcançado pelas propriedades ainda apresenta variações importantes. Para José Luiz Moraes, um dos desafios da pecuária brasileira é aproximar o potencial das tecnologias disponíveis dos resultados efetivamente obtidos no campo. Isso exige mais do que a adoção de protocolos. A preparação das matrizes, a nutrição, a sanidade, a genética, a categoria animal e a qualidade da execução do manejo precisam ser consideradas de forma integrada.
A análise de dados também amplia a capacidade de acompanhar o desempenho dos rebanhos ao longo do tempo, identificar padrões e formular perguntas mais precisas. Nesse cenário, a tecnologia atua como suporte à experiência do produtor e ao conhecimento técnico do médico-veterinário, sem substituir o papel desses profissionais na avaliação e na tomada de decisão.
Na visão do professor, o próximo avanço da reprodução bovina dependerá justamente da integração entre as diferentes áreas da produção. “Quanto mais conseguirmos integrar reprodução, genética, sanidade, nutrição, ambiente e desempenho produtivo, maior será nossa capacidade de tomar decisões mais precisas e construir sistemas mais eficientes. Acredito que o futuro não estará apenas em gerar mais dados, mas em fazer perguntas melhores e transformar esses dados em decisões cada vez mais qualificadas”, aponta.
Ao completar duas décadas, o GERAR Corte evidencia a importância da informação como ferramenta de aprimoramento da pecuária. A reunião de milhões de dados permite ampliar o entendimento sobre os fatores que influenciam a reprodução bovina e oferece referências para orientar a atuação técnica nas propriedades.
Mais do que acompanhar índices, o desafio é fazer com que os resultados das análises se convertam em ações coerentes com a realidade de cada rebanho. Como resume José Luiz Moraes, o futuro da reprodução não depende apenas da geração de mais informações, mas da capacidade de utilizá-las de maneira qualificada. “O desafio agora é fazer essas informações conversarem. Não basta saber quantas fêmeas emprenharam; precisamos entender quais animais emprenharam, em que condições, em que momento, com qual estratégia e como isso se relaciona com a eficiência do sistema como um todo”, finaliza.
Fotos: Divulgação Zoetis

